Diretor de combate ao terrorismo no governo dos EUA se demite e aconselha Trump a 'reverter curso' da guerra no Irã

Crédito, Getty Images
- Author, Bernd Debusmann Jr.
- Role, Da Casa Branca para a BBC News
- Tempo de leitura: 4 min
A principal autoridade do governo Trump sobre contraterrorismo pediu demissão em função da guerra no Irã, aconselhando o presidente a "reverter o curso".
Em carta postada na sua conta no X, o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joe Kent, declarou que o Irã "não representava ameaça iminente" aos Estados Unidos e que o governo "começou esta guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano".
Kent tem 45 anos e é veterano da CIA e das forças especiais dos Estados Unidos. Sua esposa, a técnica em criptologia da marinha americana Shannon Kent, foi morta em um bombardeio na Síria em 2019.
A Casa Branca criticou a carta, afirmando que Trump detinha "evidências convincentes" de que o Irã iria atacar os Estados Unidos em primeiro lugar.
No Salão Oval da Casa Branca nesta terça-feira (17/3), Trump declarou achar Kent um "bom rapaz", mas "fraco em questões de segurança".
O presidente americano afirmou que a carta de renúncia de Kent fez com que ele percebesse que "é bom que ele esteja fora" e discordou da avaliação do ex-funcionário sobre a ameaça iraniana.
Com sua saída, Kent se torna a figura de mais alto escalão do governo Trump a criticar publicamente a operação dos Estados Unidos e Israel no Irã.
Na carta endereçada a Trump, Kent afirmou que "altas autoridades israelenses" e influentes jornalistas americanos semearam "desinformação", levando o presidente a comprometer sua plataforma "América em Primeiro Lugar".
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"Esta câmara de eco foi usada para induzir o presidente a acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos", prossegue a carta. "Era uma mentira."
Kent é apoiador de Trump de longa data. Ele concorreu duas vezes ao Congresso americano, sem sucesso.
O presidente o nomeou no início do governo e ele foi confirmado no cargo por pequena margem. Muitos democratas criticaram suas ligações com grupos extremistas, incluindo membros do grupo Proud Boys.
Na audiência de confirmação, Kent também se recusou a retirar as afirmações de que agentes federais teriam fomentado o levante de 6 de janeiro no Capitólio e que Trump teria vencido as eleições presidenciais de 2020.
No Centro Nacional de Contraterrorismo, Kent se reportava à diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard. Ele supervisionava a análise e detecção de possíveis ameaças terroristas de todas as partes do mundo.
Antes de ocupar o cargo, Kent foi destacado 11 vezes para o exterior com as Forças Armadas americanas, incluindo com as forças especiais do Exército dos Estados Unidos no Iraque.
Ele se tornou oficial paramilitar da CIA, até deixar o serviço público após a morte da esposa.

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Kent mencionou seu serviço militar e a morte da esposa na sua carta.
Ele afirmou "não suportar o envio da próxima geração para lutar e morrer em uma guerra que não traz benefícios para o povo dos Estados Unidos, nem justifica o custo de vidas americanas".
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a indicação de que Trump teria "tomado a decisão com base na influência de terceiros, até de países estrangeiros, é ultrajante e hilária".
"Como o presidente Trump declarou de forma clara e explícita, ele tinha evidências fortes e convincentes de que o Irã iria atacar os Estados Unidos em primeiro lugar", destacou ela.
Em rápida entrevista ao jornal The New York Times, o comentarista conservador Tucker Carlson elogiou Kent, com quem mantém laços pessoais próximos.
"Joe é o homem mais corajoso que conheço e não pode ser descartado como sendo maluco", declarou Carlson.
"Ele está deixando um cargo que deu a ele acesso a inteligência relevante do mais alto nível. Os neoconservadores tentarão destruí-lo por isso."
"Ele sabe disso e fez assim mesmo", concluiu ele.
Diversas autoridades de alto escalão do governo Trump já se demitiram, como a diretora executiva da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, Margaret Ryan, e o presidente do Centro Kennedy, Ric Grenell.
Mas o segundo mandato do atual presidente apresenta muito menos rotatividade que sua primeira passagem pela Casa Branca, entre 2017 e 2021.



























