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ONU destaca 'tom conciliatório' de Bush na Assembléia Geral | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Em uma entrevista a jornalistas durante a presença do presidente Lula nesta semana na ONU, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, se esquivou (diplomaticamente, é claro) de uma "pegadinha" de uma repórter americana. Questionado sobre a postura desdenhosa do governo Bush em relação às Nações Unidas, Amorim disse que os EUA precisam da ONU. De fato, mas para quê? No seu discurso da terça-feira, na abertura dos trabalhos da Assembléia Geral da ONU, o presidente George W. Bush baixou o tom nessa "postura desdenhosa", sem questionar a relevância do organismo como na época em que estava exasperado para conseguir o seu beneplácito antes da invasão do Iraque e não conseguia. Havia, no entanto, o tom de desafio. Em meio à campanha eleitoral em que o "sucesso" no Iraque é uma pedra-de-toque no discurso republicano, Bush não iria assumir erros. E, em uma visão diametralmente oposta à do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, o presidente americano insistiu nas bases legais da invasão do Iraque. Diplomacia Mas diplomatas da ONU preferiram destacar os componentes conciliatórios do discurso de Bush e não a sua retórica de desafio. Houve até alívio diante de protocolares referências do presidente americano à nobre missão das Nações Unidas ou à crença na utilidade de ação multilateral. Um dos principais assessores de Annan, Edward Mortimer, declarou aos jornalistas que existe uma "enorme diferença entre o que Bush disse na ONU e o que foi escutado durante a Convenção Republicana". Mortimer disse esperar que este discurso de Bush "enterre a idéia de que exista uma espécie de guerra entre os EUA e a ONU". Bem, a guerra EUA-ONU continua e em parte agora instigada por John Kerry, o oponente democrata de Bush, que nos últimos dias radicalizou o seu discurso sobre o Iraque e desta forma tenta colocar o presidente como um pária global. Comentaristas conservadores ironizam que até prova em contrário Kerry finalmente tem uma posição e ainda por cima distinta da do presidente republicano. Para Kerry, mais quatro anos de Bush na Casa Branca irão ampliar o fosso entre os EUA e a comunidade internacional. Bush está em campanha de reeleição, mas com o seu discurso na ONU estava também de olho em uma audiência global. Kerry tem razão: é um público muito mais cético do que eleitores republicanos, para não dizer hostil. E, como observou o New York Times no seu editorial de quarta-feira, os "EUA precisam desesperadamente da parceria de outras nações no Iraque". E aqui vale acrescentar o Afeganistão, que também tem sido apontado como uma história de sucesso por Bush nos seus comícios eleitorais. O diplomata Celso Amorim, portanto, também tem razão. Os americanos precisam do resto do mundo. Mas as regras deste jogo são claras. A ONU e outras instituições multilaterais podem ajudar, mas nunca influenciar a agenda da política externa dos EUA. Alguns lances conciliatórios na esfera multilateral escapam ao radar de uma base republicana tão orgulhosa da postura unilateral do presidente. Estes lances não têm impacto para cicatrizar as feridas criadas no relacionamento entre os EUA e a ONU com a crise no Iraque, mas ao menos servem para conter um estrago ainda mais grave. |
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